31/08/2025
Capítulo 1 – O Machimbombo do Primeiro de Maio
Era fim de tarde na Baixa. Quem conhece a cidade sabe como o coração de Maputo pulsa nesse horário, barulho de vendedores a gritar, passos apressados e a multidão que se atropela em busca de um lugar no machimbombo. O ar parecia pesado de tanta pressa, como se cada pessoa estivesse numa corrida invisível contra o tempo.
Depois de minutos de espera, um machimbombo do Primeiro de Maio parou finalmente na paragem. A multidão avançou com força. Empurrões, gritos, discussões por um assento vago. Naquela confusão, como se fosse destino, eu e ela acabámos por cair na mesma cadeira.
Sentei-me ao lado daquela mulher que, sem saber, iria mudar os rumos do meu coração. Tinha um olhar tímido, traços delicados, e um silêncio que falava mais do que mil palavras. O machimbombo permaneceu parado por longos minutos, enquanto o cobrador chamava mais passageiros. Eu, para passar o tempo, abri um filme de terror no telemóvel.
No início assisti sozinho, mas percebi o olhar curioso dela, espreitando de canto. Sorri comigo mesmo e virei o ecrã, partilhando o filme sem sequer pedir. Ela não recusou. Aceitou o gesto com aquele sorriso discreto que não me saiu mais da memória.
De repente, como se fossemos cúmplices de longa data, começámos uma aposta: quem iria morrer primeiro no filme? Rimos baixo, cúmplices no segredo de uma brincadeira inocente. Foi nesse instante que a distância entre estranhos começou a desaparecer.
Perguntei-lhe a idade. Ela, com um ar maroto, respondeu:
— Tenho 27.
Eu sabia que não era verdade, mas deixei-me levar pelo jogo.
— Então tenho 28 — respondi, como quem ergue uma barreira para se manter no mesmo terreno que ela.