16/04/2026
Há uma tortura silenciosa em ver os pais envelhecendo ou adoecendo. É como se o mundo perdesse o chão por alguns instantes. É como se todas as nossas lembranças dos bons momentos se dissipassem.
O Alzheimer chega devagar, tirando a personalidade aos poucos. E, às vezes, tudo piora num piscar de olhos. Tenho guardada uma gravação de uma ligação que recebi dos meus avós no meu aniversário de 2024. Batchan falava bem, animada e cheia de amor. Disse: “Otanjōbiomedetō” (feliz aniversário) e foi dormir. Nunca imaginei que, nos anos seguintes, tudo mudaria tão rápido.
Eu entendo que quase ninguém quer falar sobre isso. É difícil aceitar certas realidades. Confesso que até eu relutei em escrever sobre isso. Mas precisamos falar — no sentido de liberdade. Dizer que não está tudo bem. E tudo bem não estar tudo bem. Não ser forte o tempo todo não é falta de amor, nem desistência. Talvez seja uma das maiores provas dele: reconhecer o que sentimos e aceitar que isso também faz parte.
Um dia escutei: como acreditar no amor, sabendo que tudo tem fim? Quando na verdade: como não acreditar no amor, sabendo que tudo tem fim?
Acredito que o único “problema” do amor é que, junto dele, vêm muitos outros sentimentos. Com ele nasce o medo: de perder, de não dar conta, de ver quem amamos fragilizar.
Em algum momento, queremos resolver tudo. Evitar que sofram. Fazer com que tudo seja perfeito. Mas existe uma linha sagrada nos quereres da vida: não temos superpoderes. Nem tudo sai como planejado. As coisas se alinham à realidade — nunca ao ideal.
E então vem a culpa. A frustração. Queremos fazer tudo, assumir tudo, até inverter papéis. Mas eles continuam sendo os grandes. E nós continuamos sendo filhos, sendo netos.
Quando a hierarquia se rompe, o cuidado vira peso. Vira cobrança, vira culpa. Amparar é necessário. Desrespeitar a ordem, não. Quando o cuidado vem com respeito, há dignidade. Quando vem com piedade, há uma humilhação silenciosa.
Tudo vira uma bola de neve — quando o essencial é simples: cuidar.
Cuidar é devolver um pouco da vida recebida. Sem inverter lugares. Sem carregar sozinho o que não é só nosso. É assim que a ordem se reorganiza — e o amor volta a fluir com leveza.